A poesia minimal de um dos maiores nomes da literatura brasileira |
O escritor e poeta Mario Quintana. Mario Reprodução / Acervo IMS
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Dono de uma escrita aparentemente simples, mas profundamente elaborada, Mario Quintana soube capturar o humor, a melancolia e o espanto diante das pequenas coisas, aquelas que muitas vezes passam despercebidas. Seus versos oscilam entre o lirismo e a ironia, compondo um olhar ao mesmo tempo leve e penetrante sobre o mundo. Sua obra permanece atual justamente por isso: porque fala, com graça e inteligência, daquilo que é profundamente humano.
No texto a seguir, o autor João Anzanello Carrascoza faz uma homenagem aos 120 anos do poeta das coisas simples.
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Mario Quintana e a poesia minimal, por João Anzanello Carrascoza |
Quando, tempos atrás, fui convidado por Daniela Duarte, da editora Alfaguara, para organizar uma antologia poética de Mario Quintana, a fim de aproximar a sua obra de leitores das novas gerações, encantou-me, logo no início do trabalho, o reencontro com dois elementos enfáticos de seu estilo: a observação singular dos homens, dos objetos e de seus movimentos, e o talento para registrar, com mínimos recursos linguísticos, esse seu ângulo perceptivo.
O humor, a espirituosidade e o lirismo são também traços demarcatórios de sua poesia, mas os dois acima mencionados ganham proeminência neste texto-homenagem – além de realçados por muitos de seus pares, como Carlos Drummond de Andrade no poema em prosa Quintanas’s Bar. Especialmente porque, numa esfera comparativa com a avalanche de frases de efeito, slogans, vídeos curtos e outras formas breves, são tão insígnes que comprovam o quanto essa produção minimal contemporânea é uma enchete de irrelevância.
Basta citar alguns poemas de Quintana, até mesmo os de uma linha só, publicados em qualquer um de seus livros, sejam nos primeiros, sejam em O caderno H, onde proliferaram em maior quantidade:
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Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho.
Nunca me acertei bem com os padres, com os críticos e com os canudinhos de refresco.
Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas...
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Se esses poemas citados ganharam a forma de microcontos, com a presença do conflito obrigatório ao gênero, outros tantos mimetizam o formato de conceito, de definição: |
Linha curva O caminho mais agradável entre dois pontos.
Linha reta Linha sem imaginação.
Vento Pastor das nuvens.
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Na estruturação da antologia que nomeei de O segundo olhar, apoiei-me no poema “As coisas”, no qual Quintana afirma que muitas coisas são fundamentais em nossa existência diária, mas as julgamos insignificantes porque não lançamos a elas um segundo olhar, como ele faz em relação à natureza, e o consubstancia em dezenas epigramas. Eis alguns: |
Uma folha, ai, melancolicamente
cai!
Quando abro a cada manhã a janela do meu quarto É como se abrisse o mesmo livro Numa página nova...
Ah, nunca a vida fez uma história mais triste
Que a de um caminho que se perdeu...
O viajante
Eu, sempre que parti, fiquei nas gares Olhando, triste, para mim...
Verão Há sempre, afastada das outras, uma nuvenzinha preguiçosa que ficou sesteando no azul.
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Grande é o poeta que, mesmo em seus poemas de curta extensão, semeia o segundo olhar e a sua consequente condensação poética em novas vozes literárias. Vejo, por exemplo, a linhagem minimalista de Quintana se expressar na estreia recente de duas poetas: Vanessa Corrêa, com seu belíssimo Tinge tudo dentro de mim; e Cristina Dias com os delicados haicais de Lembrança libélula.
Vanessa Corrêa nos apresenta cápsulas de alta voltagem lírica, à moda de Mario Quintana:
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abelha que se suja de pólen levando para longe outra promessa de flor
dorboleta voava se virasse a letra
naquele dia você fazia sol e eu chovia
inveja dos rios que não sabem para onde vão e chegam ao mar
poesia é a língua lambendo o nosso ouvido
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Cristina Dias também emerge com versos de cepa similar à do poeta gaúcho e mirada de igual sensibilidade: |
eu nasci só, tão só,
que nem a minha mãe estava lá.
o asfalto amarelo é presente do ipê,
o homem nem vê.
penas de aves só são livres ao vento.
alegria
brisa furta-cor,
acaba de passar por mim
um beija-flor.
poesia
ganhei um livro
quintana de bolso.
fiquei rica.
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Celebremos, pois, os 120 anos de nascimento de Mario Quintana, a sua extensa produção poética, seus micropoemas, suas nanonarrativas e as novas poetas que brotaram da raiz de sua verve.
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