Entre amor, memória e morte, uma obra marcada pela lucidez e pela ironia

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José Paulo Paes, 100 anos

A vida e a obra de um poeta que reduz o excesso para ampliar o mundo

José Paulo Paes em 1991, na biblioteca de sua casa, na capital paulista. Reprodução: Ormuzd Alves / Folhapress.

 

Poucos poetas conseguiram dizer tanto com tão pouco quanto José Paulo Paes. Em versos concisos, ele construiu uma obra marcada pela lucidez, pela ironia e pela aversão ao sentimentalismo. 

José Paulo Paes nasceu em Taquaritinga, interior de São Paulo, em 1926, filho de pai português e mãe brasileira. Aos 17 anos, mudou-se para Curitiba, onde se formou no curso técnico do Instituto de Química do Paraná. Na cidade de São Paulo, onde passou a viver em 1949, trabalhou onze anos numa indústria farmacêutica e quase vinte anos na editora Cultrix, quando se aposentou para dedicar-se integralmente à escrita. 

Seu primeiro livro de poemas foi publicado em 1947. Entre seus temas recorrentes, ao longo de mais de dez títulos, estão o amor, a memória, a proximidade da morte e a crítica política — com alguma descrença, mas também com intenso lirismo e uma boa dose de experimentação formal.

Hino ao sono

sem a pequena morte

de toda noite

como sobreviver à vida 

de cada dia?

 

VIDA E OBRA 

Paralelamente à poesia, o autor também colaborou com a imprensa, escrevendo colunas e críticas. Sua obra ensaística reflete o mesmo rigor de sua produção poética: textos capazes de abordar questões complexas com naturalidade, como uma conversa com o leitor. Frequentemente, utilizou o espaço opinativo para refletir sobre o próprio ofício e sobre sua “linhagem” na poesia brasileira.

José Paulo Paes também foi um dos grandes renovadores da poesia infantil moderna no Brasil. Com originalidade, criou livros que instigam o leitor por meio de jogos de palavras e trava-línguas, evitando o tom moralista ou educativo tradicional. Sua proposta era provar que qualquer um, desde que movido pelo encanto de um livro, pudesse relacionar-se com ele de forma amorosa e dignificante.

À bengala

Contigo me faço

pastor do rebanho

de meus próprios passos.

A tradução também ocupa um lugar central em sua trajetória. José Paulo Paes verteu para o português autores de diferentes línguas, como William Carlos Williams, Konstantínos Kaváfis, Giorgos Seféris, Paul Éluard e Rainer Maria Rilke. Apesar do ofício, nunca aprendeu nenhuma língua de forma sistemática.

José Paulo Paes viveu até os 72 anos, sempre enxergando a poesia como metáfora do mundo: uma ferramenta capaz de revelar o universal no particular e de denunciar o cinismo dos poderosos e a banalização da vida contemporânea. De fato, não existe vício mais oposto à poesia de José Paulo do que a ganância. Até mesmo ao imaginar uma inscrição para o seu túmulo, ele optou pela parcimônia: "para quem pediu sempre tão pouco/ o nada é positivamente um exagero".

 

4 POEMAS PARA CONHECER

À televisão

Teu boletim meteorológico

me diz aqui e agora

se chove ou se faz sol.

Para que ir lá fora?

 

A comida suculenta

que pões à minha frente

como-a toda com os olhos.

Aposentei os dentes.

 

Nos dramalhões que encenas

há tamanho poder

de vida que eu próprio

nem me canso em viver.

 

Guerra, sexo, esporte

— me dás tudo, tudo.

Vou pregar minha porta:

já não preciso do mundo.

 

Ao fósforo

 

Primeiro a cabeça

o corpo depois

 

se inflamam e acendem

 

o forno

do pão

 

a luz

na escuridão

 

a pira

da paixão

 

a bomba

da revolução.

 

Sim, mas vamos à coisa concreta:

 

você fala de fósforos

ou de poetas?

 

Ao compromisso

 

Não sou homem de extremos.

Não sou do mais

nem do menos.

 

Tanto assim que nasci

em Brasília mesmo.

Não no Oiapoque ou no Chuí.

 

Canção de exílio

Um dia segui viagem

sem olhar sobre o meu ombro.

 

Não vi terras de passagem

Não vi glórias nem escombros.

 

Guardei no fundo da mala

um raminho de alecrim.

 

Apaguei a luz da sala

que ainda brilhava por mim.

 

Fechei a porta da rua

a chave joguei ao mar.

 

Andei tanto nesta rua

que já não sei mais voltar.

 

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